Zelensky desembarca na Flórida para reunião de paz com Trump e tenta destravar plano de fim da guerra na Ucrânia

Donald Trump e Volodymyr Zelensky posam juntos em evento oficial na Casa Branca durante encontro diplomático em 2025.
O presidente dos EUA, Donald Trump, recebe o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, na Casa Branca, em Washington, D.C., em 17 de outubro de 2025. Foto: REUTERS/Jonathan Ernst.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, desembarcou na Flórida na noite deste sábado (27) para um encontro decisivo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Palm Beach. A reunião acontece neste domingo (28), em Mar-a-Lago, e tem como objetivo avançar em um plano de paz que possa encerrar quase quatro anos de guerra com a Rússia.

O encontro é visto como um dos momentos mais sensíveis da diplomacia internacional recente: enquanto Zelensky busca garantias de segurança e preservação da soberania ucraniana, Trump tenta se firmar como mediador de um acordo que envolva concessões territoriais e contrapartidas econômicas para Moscou.

Chegada sob o som de sirenes em Kyiv

A viagem de Zelensky ocorre em meio a uma nova onda de ataques russos contra a Ucrânia. Nas horas que antecederam sua chegada à Flórida, Moscou lançou um dos bombardeios mais intensos dos últimos meses contra Kyiv e outras regiões, com uso massivo de drones e mísseis. As ofensivas deixaram ao menos um morto, dezenas de feridos e grandes áreas da capital sem energia e aquecimento, em pleno inverno rigoroso.

Mesmo sob pressão interna e com críticas de parte da população à possibilidade de concessões, Zelensky tem repetido que “uma paz justa e duradoura” continua sendo o objetivo central de sua diplomacia – mas sem “rendição disfarçada” nem legitimação das anexações promovidas pela Rússia desde 2014.

O que está em jogo em Mar-a-Lago

O eixo central da reunião é um plano de paz de 20 pontos, elaborado pela Ucrânia em diálogo com negociadores americanos, que substitui uma versão anterior de 28 pontos. Esse novo documento busca alinhar as demandas de Kyiv às condições que Washington considera minimamente aceitáveis, sem abrir mão de cláusulas essenciais para a segurança ucraniana.

Entre os principais pontos do plano estão:

  • Garantias de segurança em estilo OTAN, com forte papel dos Estados Unidos e de aliados europeus;
  • Reconhecimento da soberania ucraniana e rejeição formal à anexação russa de territórios;
  • Plano de reconstrução econômica estimado em cerca de US$ 800 bilhões, com foco em infraestrutura, energia e habitação;
  • Roteiro para integração total da Ucrânia à União Europeia;
  • Mecanismo internacional de monitoramento de um eventual cessar-fogo e de áreas desmilitarizadas.

Os pontos mais polêmicos dizem respeito ao futuro das regiões ocupadas pela Rússia no leste ucraniano — especialmente no Donbas — e ao controle da usina nuclear de Zaporizhzhia, atualmente sob domínio russo. Washington chegou a propor modelos de administração conjunta para a usina, enquanto Kyiv prefere participação exclusiva com aliados ocidentais.

A posição de Trump e o telefonema com Putin

Às vésperas da reunião, Trump declarou ter tido uma “conversa boa e muito produtiva” com o presidente russo, Vladimir Putin. O conteúdo exato da ligação não foi divulgado pelo Kremlin, mas a mensagem reforçou a imagem do presidente americano como interlocutor direto de Moscou nesse processo.

Segundo relatos de bastidores, Trump estaria aberto a discutir:

  • algum tipo de concessão territorial limitada em áreas hoje ocupadas pela Rússia;
  • zoneamento desmilitarizado em partes do leste ucraniano;
  • incentivos econômicos a Moscou, como flexibilização gradual de sanções e reintegração parcial ao sistema financeiro global, condicionados ao cumprimento de um cessar-fogo e de garantias verificáveis.

Críticos, em Kyiv e em capitais europeias, temem que o desenho final do acordo acabe por cristalizar ganhos territoriais de Putin e enfraquecer o princípio de integridade territorial — considerado um pilar da ordem internacional pós-Segunda Guerra.

Zelensky tenta equilibrar pressão externa e opinião pública

Para Zelensky, o desafio é duplo: manter o apoio militar e financeiro do Ocidente e, ao mesmo tempo, não ultrapassar a linha do que a sociedade ucraniana aceita como “compromisso” sem se tornar “capitulação”. O presidente já admitiu que, diante de concessões mais profundas, poderá ser necessário consultar a população, seja por referendo, seja por amplo debate parlamentar.

Nos últimos dias, Zelensky passou por Canadá e por reuniões virtuais com líderes europeus, obtendo promessas de novos pacotes de ajuda financeira e militar, além de reafirmações de apoio ao caminho da Ucrânia rumo à União Europeia.

Europa observa com cautela

Capitalizações europeias acompanham o encontro com atenção redobrada. Para a União Europeia, qualquer acordo que enfraqueça o princípio de fronteiras invioláveis pode abrir precedentes perigosos para outras disputas territoriais no continente. Ao mesmo tempo, há pressão interna em vários países por uma solução que reduza os custos econômicos e energéticos da guerra prolongada.

Diplomatas europeus têm defendido que:

  • qualquer cessar-fogo seja verificável e supervisionado por organismos internacionais;
  • a Ucrânia mantenha meios de defesa suficientes para evitar novas agressões;
  • as sanções contra a Rússia só sejam aliviadas de forma gradual, vinculadas a etapas concretas de cumprimento do acordo.

Próximos passos

A expectativa é que o encontro deste domingo produza, ao menos, um esboço político do acordo de paz, com definições mais claras sobre:

  • o cronograma de um possível cessar-fogo;
  • a arquitetura das garantias de segurança oferecidas pelos EUA e aliados;
  • o formato de mediação internacional permanente, possivelmente por meio de um conselho de paz dedicado ao cumprimento do acordo;
  • a forma de consulta interna na Ucrânia para validar os termos finais.

Mesmo que não resulte em um anúncio imediato, a reunião em Mar-a-Lago é vista como um teste decisivo para saber até onde Kiev, Moscou e Washington estão dispostos a ir em busca de um fim negociado para o conflito — e qual será o custo político dessa paz para cada lado.

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