Insurgência do Estado Islâmico avança em Moçambique e força fuga de mais de 300 mil pessoas

Grupo de mulheres deslocadas em Naminawe, próximo a Pemba, Moçambique, reunidas ao ar livre usando lenços coloridos, após fuga de ataques insurgentes.
Mulheres deslocadas em Naminawe, nas proximidades de Pemba, Moçambique — Foto: Diego Menjibar Reynes/AFP/Getty Images.

Violência se intensifica no norte do país apesar da presença de tropas moçambicanas e ruandesas; ONU alerta para risco de desastre humanitário prolongado.

Pemba, Moçambique | A insurgência associada ao Estado Islâmico na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, voltou a ganhar força nos últimos meses e já provocou a fuga de mais de 300 mil pessoas apenas no último ciclo de ataques, de acordo com observadores internacionais e agências humanitárias que atuam no país. A violência tem se concentrado nos distritos rurais e comunidades próximas a rotas de mineração e gás natural, considerados estratégicos para grupos jihadistas.

O movimento insurgente, ativo desde 2017, voltou a escalar após uma fase de relativa contenção entre 2022 e 2024. Relatórios apontam que células armadas realizaram ataques coordenados a aldeias, postos policiais e convoys civis, resultando em mortos, desaparecidos e na destruição de infraestrutura básica. Mesmo com a presença de tropas moçambicanas e ruandesas, enviadas com o objetivo de estabilizar a região, os militantes continuam explorando áreas florestais e de difícil acesso para se reorganizar e lançar novas ofensivas.

Crise humanitária se agrava

Organizações humanitárias relatam que a nova onda de deslocamentos pressiona campos de refugiados já saturados. Em Pemba, Mueda e Montepuez, dezenas de milhares de famílias vivem em abrigos improvisados, muitas vezes sem acesso regular a água potável, alimentos e atendimento médico. Crianças representam a maior parte dos deslocados recentes, segundo trabalhadores voluntários.

A ONU alerta que, se a instabilidade persistir, o número de deslocados internos pode ultrapassar 1 milhão até o início de 2026, tornando a crise uma das maiores da África Austral. Autoridades locais tentam ampliar corredores humanitários, mas o acesso terrestre permanece arriscado, com estradas sob risco constante de emboscadas.

Economia e exploração de gás na mira dos militantes

Cabo Delgado é sede de grandes reservas de gás natural, o que atrai investimentos internacionais bilionários. Especialistas avaliam que o interesse geoeconômico da região se tornou um dos motores da insurgência, que busca controlar recursos e rotas comerciais. Empresas estrangeiras já suspenderam ou reduziram operações por falta de segurança.

“O conflito passou de ataques esporádicos para uma insurgência estruturada. Há liderança, financiamento externo e capacidade de reposicionamento rápido”, afirmou um pesquisador especializado em terrorismo no sul da África.

Busca por solução política e militar

O governo moçambicano aposta na cooperação com Ruanda e com a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), mas admite que a estabilização completa exige investimento social, reconstrução e combate ao recrutamento de jovens, que ocorre frequentemente em áreas pobres e com baixo índice de desenvolvimento.

Diplomatas europeus monitoram o cenário com preocupação, uma vez que o gás moçambicano é considerado parte estratégica na matriz energética global. O temor é que o avanço jihadista transforme o norte do país em um novo polo prolongado de conflito, semelhante a casos no Sahel e na Nigéria.

Enquanto isso, famílias seguem fugindo com o que conseguem carregar. A imagem recorrente nas estradas de Cabo Delgado são caminhantes exaustos, mães com crianças no colo e povoados reduzidos a cinzas — um retrato silencioso de uma guerra que, para muitos, parece não ter fim próximo.

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