Brasília/DF – A Polícia Federal deflagrou nesta terça‑feira a Operação Igapó, em uma das maiores investigações recentes sobre desvio de recursos públicos envolvendo um parlamentar com prerrogativa de foro no Supremo Tribunal Federal (STF). O deputado federal Antônio Doido (MDB‑PA) é apontado como líder de uma organização criminosa suspeita de desviar e lavar verbas públicas por meio de fraudes em licitações e pagamentos de vantagens indevidas, conforme revelou o relatório da PF obtido com exclusividade pela nossa reportagem.
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Agentes da PF, autorizados pelo ministro Flávio Dino, do STF, cumpriram 31 mandados de busca e apreensão no estado do Pará e no Distrito Federal. Entre os alvos estavam o apartamento funcional de Doido em Brasília e endereços vinculados às empresas e operadores financeiros suspeitos de integrar o esquema.
Saques milionários e lavagem de dinheiro
Relatórios da PF indicam que o grupo investigado sacou mais de R$ 48 milhões em espécie em diversas operações bancárias, realizadas entre março de 2023 e outubro de 2024, segundo dados de movimentações bancárias analisadas pelos peritos federais.
Segundo a investigação, as retiradas em dinheiro vivo foram feitas em agências de municípios paraenses como Castanhal e São Miguel do Guamá, locais associados à atuação do deputado e seus operadores. O maior saque individual identificado foi de R$ 5 milhões em um único dia, fato que motivou a prisão em flagrante de dois integrantes do esquema no ano passado.
Fontes próximas à PF apontam que o elevado volume de retiradas em espécie pode ter servido tanto para ocultar a origem ilícita dos recursos quanto para financiar atividades eleitorais não declaradas de aliados do parlamentar investigado, configurando indícios de lavagem de dinheiro e corrupção eleitoral.
O papel do deputado na organização
O ministro do STF, Flávio Dino, na decisão que autorizou as diligências desta terça‑feira, escreveu que há indícios sólidos de que Doido “comandava a organização criminosa” e utilizava uma rede de empresas — muitas das quais de fachada — para operacionalizar a movimentação financeira e desvio de verbas.
Documentos apreendidos e mensagens extraídas de celulares de operadores do grupo citam o parlamentar em conversas sobre saques e divisão de recursos, apontam os investigadores. A PF encontrou ainda evidências de que empresas ligadas a empresários próximos ao deputado eram utilizadas para fraudar licitações e receber valores de contratos que deveriam atender serviços públicos, mas que supostamente resultaram em superfaturamento ou serviços não realizados.
Crimes investigados
De acordo com a PF, os investigados podem ser responsabilizados por diversos delitos, incluindo:
- Corrupção eleitoral, ativa e passiva;
- Crimes licitatórios e fraudes em contratos públicos;
- Lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio;
- Participação em organização criminosa.
A operação também segue linhas de investigação sobre indícios de favorecimento político e uso de recursos desviados para impulsionar candidaturas ou financiar campanhas de aliados, o que pode influenciar novos desdobramentos judiciais.
Tentativa de obstrução e reação
Durante a ação, agentes federais apreenderam o celular do parlamentar após o aparelho ter sido lançado pela janela, em uma aparente tentativa de impedir que as comunicações contidas no dispositivo fossem acessadas. A cena foi registrada pelo entorno do prédio funcional em Brasília e está sendo analisada como possível obstrução de investigação.
Posicionamentos e próximos passos
Até o momento, a defesa de Antônio Doido não se manifestou oficialmente sobre as acusações ou as diligências da PF. A Câmara dos Deputados foi procurada, mas não informou se adotará providências internas ou se aguardará o desfecho das apurações no STF.
Especialistas em direito público ouvidos pela reportagem afirmam que, se as suspeitas forem comprovadas, além de penas previstas no Código Penal, o deputado pode enfrentar processos de cassação de mandato, inelegibilidade e ressarcimento ao erário.
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